samedi 19 août 2006

Estou me sentindo em preto-e-branco nestes dias. É estranho, logo agora que começo a mexer de novo com tantas cores... Às vezes fica difícil criar uma peça que seja, mas acabo conseguindo. Um chaveiro, um colar, um par de brincos... Mas eu mesma, quando me olho, me vejo em P&B. Sei que isso vai passar. Todo mundo tem uma fase assim. Às vezes é preciso passar por isso para poder valorizar as cores que trazemos em nós mesmos...
Elas não somem, apenas se escondem.
A propósito, o poema de Manuel Bandeira diz muito sobre a angústia que sinto ao perceber que pessoas tão importantes, tão fundamentais da minha família, estão "adormecendo profundamente"... Já faz tempo, mas só agora me dou conta. A matriarca adormeceu... Sinto que estou mais velha...

Profundamente
Manuel Bandeira
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
mardi 15 août 2006

Envelhecer é uma faca de dois gumes - por um lado, é muito bom adquirir conhecimentos, sabedoria, amadurecer de uma forma geral. É um ganho de liberdade, autonomia para poder decidir o que se quer fazer.
Por outro lado, é péssimo, pois aos poucos vemos elementos do nosso passado, figuras que nos davam tanta segurança, indo embora. Vem então a sensação do vazio, da insegurança, do "não sei o que fazer agora". E olhamos para nossas vidas e nos damos conta, subitamente, de que passamos a ocupar o lugar dos nossos pais, eles ocupam então o lugar que era dos nossos avós e as crianças da família, o lugar que era nosso até pouquíssimo tempo atrás!
A matriarca da nossa família se foi neste domingo, 13/08. Marília, 95 anos. agora, a mais velha é minha tia Nylza, irmã dela, de 85 anos. Mas o elemento agregador agora é a Maiz (minha madrinha), filha da tia Marília. E de repente eu olho pra mim mesma e me vejo de uma forma como nunca havia me visto antes. A família em que eu nasci já quase não existe mais. Agora temos outra família, nascida daquela. Não tenho filhos (ainda), mas a Luiza é minha "irmã-filha" e entendo agora por que ser mãe não é fácil. Antigamente, eu queria muito ter filhos, mas esquecia que, pra isso, eu precisaria crescer primeiro...rs... E se ser mãe não é fácil, crescer é mais difícil ainda!...rs... É preciso aprender a ser despojada, saber envelhecer, entender que os papéis mudam e curtir isso.
Não imaginava que fosse ser tão complicado ver minha tia Marília partir... Embora eu saiba que ela precisava ir, já não havia como continuar aqui. Com ela se foi uma parte importante da vitalidade da nossa família, talvez o elo mais forte que nos unia até então. Vamos ver a partir de agora, como vai ser. Só sei de uma coisa: vai depender de nós, que ficamos, manter esses elos unidos ou não. Deus nos ajude a mantê-los unidos!
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